O enorme cepo de oliveira revivia o passado,
enquanto ardia lentamente ao canto da lareira.
Tinha séculos de existência! Principiara a sentir dificuldades circulatórias
quando a seiva, que as raízes sugavam da terra, não atingiam todos os ramos.
As folhas começaram a amarelecer…
Ao fim de muitas gerações, ninguém lhe vinha colher azeitonas porque já não as tinha.
A oliveira vira-se reduzida a um cepo.
Mantinha apenas a consciência de ser o que restava da antiga árvore frondosa,
em cuja sombra numerosos grupos de peregrinos tinham comido as merendas
e cuja folhagem abrigara os pássaros dos calores do sol e do estio.
Vieram arrancar o cepo e levaram-no para aquela sala onde havia um fogão.
Pegaram-lhe fogo. E o raizame seco ficou espantado ao verificar como dele
espirravam faúlhas e os seus tecidos mortos se tornavam em labaredas vivas.
Os homens à sua volta, esfregavam as mãos,
as mulheres aproximavam-se muito dele e as crianças
dormitavam aconchegadas no regaço das mães.
O cepo também pensa: Nasci para servir os outros.
Fiz o melhor que soube e pude no desempenho da missão que me coube.
E, por isso, morro tranquilo e feliz. No punhado de cinza a que me reduzo
fica a alegria de me ter dado completamente aos outros, até ao fim.
Eles podem nem reparar nisto, mas basta que eu o saiba.
Ir. Maria dos Anjos, p. m.
irmanjosalvesam@hotmail.com
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